Fragmentos de uma relação bdsm | segundo ato

Submissa:

Foi difícil entender o que se passava pela minha mente naqueles instantes finais. É muito complexo este jogo e ainda estou aprendendo a entender o meu “adversário”, entender sua mente, seu objetivo e poder jogar com as mesmas armas que ele….

O ser humano é muito complexo e nem sempre decifrável. Ontem sai com a sensação intensa de ter sido um objeto, imóvel, de joelhos na porta do banheiro, algo como um belo vaso abandonado no canto da sala, aqueles que só lembramos que existe quando chutamos sem querer ou vemos as folhagens amareladas. Aliás, tive esta sensação algumas vezes.

Até meus pensamentos me desprezaram me viraram as costas e me deixaram vazia naquele carro, em busca de uma palavra, um gesto qualquer que me expulsasse deste buraco enorme que se abriu e onde me sentia encolhida e sozinha.

Talvez seja mais fácil quando não se tem ansiedade, como disse, e eu que me achava uma pessoa controlada e dona de si, me deparo com uma necessidade enorme de satisfazer alguém, de dar prazer, não se importando com a forma. A ansiedade vem deste silêncio absoluto depois do barulho do carro se distanciando… me faz sentir uma mulher qualquer sendo deixada num canto qualquer… e saio me perguntando quem sou eu. Quem é esta mulher que conduz a vida com tanto equilíbrio e neste momento tão frágil, tão pequena, tão diminuída.

Ao mesmo tempo em que este sentimento dói, que consome, conforta. É como se existisse duas pessoas dentro deste mesmo corpo, vivendo uma crise existencial e brigando pelos seus direitos, uma de mulher e a outra de escrava.

Qual das duas será que ganha esta briga?

Poderiam até se entender se houvesse a satisfação e complemento das duas….

Mas é tão difícil achar este equilíbrio, principalmente porque não depende de mim e sim de outra pessoa que decide o que vai fazer comigo hoje… e ele quis me usar, apenas.

Acho que estou lendo “50 tons” num momento bem propicio….e como diz Anastácia, – “quero mais”.

Foi mais ou menos como sair do teatro antes do final da peça e não saber como ela acabou.

Se o seu desejo foi este, objetivo alcançado.

Isto me consome, porque me frustra me preenche, me confunde e me lembra do que sou na essência e meu medo é a entrega sem questionar os pensamentos e sem que eles se revoltem contra mim mesma.

Senti falta de você.

 

Dominador:

Boa noite X, como vai?
muito bom, foi como eu esperava.

Quero que você experimente sensações diferentes, investigue a você mesma, descubra-se… só depois de termos explorado alguma coisa é que teremos parâmetros para então seguir determinada linha.

A ideia de briga entre as duas pessoas dentro de si mesma é natural, mas a situação não existe, não é uma briga e ninguém ganha a batalha… e é justamente aí que vem a coisa legal, o melhor aspecto da nossa cabeça. Você está naquele momento dominada, entregue, a dominação psicológica depende justamente das reviravoltas, dúvidas e incertezas absolutas… isso faz com que você esteja disponível, frágil e que dependa de confiança em seu dominador. Ainda falta muuuito para experimentarmos, testarmos, alcançarmos, mas nessa pegada eu tenho certeza que cada etapa do processo será bem vivida e aproveitada.

Pense que todo esse exercício pode deixar muita coisa preciosa de legado… é com ele que você vai se descobrir no bdsm, é com ele que eu vou fazer desabrochar em você a submissa do meu jeito. Mas que é só um modelo que iremos criar juntos, para a nossa relação. E você tem muito mais a oferecer, com suas peculiaridades e experiências externas ao bdsm, que faz com que esse estereótipo da nossa relação seja único, só nosso. Se houver outra pessoa no futuro, ela já não irá experimentar das mesmas situações com você, mesmo que utilize as mesmas técnicas e conceitos que eu. Pois cada qual transforma o meio com suas experiências… além de você ser uma pessoa diferente a cada dia.

E viva às diferenças! a descoberta de si própria e da submissa que está aí, gritando para inundar sua mente.

Bem-vinda, à noite escura… nossa atmosfera está criada.

Conforto: não pense que você sendo usada é algo negativo. É aí que o bdsm está… e nem sempre você será só usada, ainda temos muito a fazer.

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